Escritor Oriental É Um Personagem Criado
Pelo Professor Júlio César de Mello e Souza
 
 
Silveira Peixoto
 
 
 
Malba Tahan, o autor-personagem, e o professor Júlio César
 
 
 
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O texto a seguir é reproduzido da obra “Falam
os Escritores”, volume III, de Silveira Peixoto,
Conselho Estadual de Cultura, SP, 1976, 280 pp.,
ver páginas 167-176. A ortografia foi atualizada.
 
Júlio César de Mello e Souza, criador de Malba Tahan,
foi professor de Matemática. Nasceu em 6 de maio de
1895 em Queluz,  São Paulo, e viveu até junho de 1974.
 
A entrevista com Silveira Peixoto ocorreu em 1941.
 
(CCA)
 
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O sol está brincando de esconde-esconde, lá em cima, por entre as nuvens, e só de quando em quando abre uma janela, para espiar o panorama impetuoso de São Paulo. Ainda não é bem uma hora da tarde, quando chego à redação de A Gazeta. E aqui, logo à porta, me encontro com Luís Silveira. Ele, meu tio e meu amigo, a cabeleira alva a aureolar-lhe a fronte, é quem me avisa, no seu jeito descansado de falar:
 
– Esteve aqui o Dr. Mello e Sousa. Procurou por você…
 
– Mello e Sousa?!
 
– Pois é, menino. O Malba Tahan…
 
– Ah! O Malba Tahan!
 
Apanho um telefone. Responde-me, do outro lado do fio, a voz da telefonista do hotel em que o escritor se acha hospedado.
 
– Senhorita, desejo falar com o Dr. Mello e Sousa.
 
– Doutor Mello e Sousa?
 
– Sim, senhorita.
 
– Como é o primeiro nome dele?
 
– Ó senhorita! É o Malba Tahan.
 
– Ah! O Malba Tahan! Um momento, faça o favor…
 
Desço a Rua da Conceição, chego à Praça do Correio… Uma recordação carrega-me pelo tempo em fora, leva-me para um dia, no passado. Eu me revejo, adolescente, na sala de leitura do “Centro dos Operários Católicos”, em Taubaté, percorrendo um jornal do Rio, engolfando-me todo num conto oriental…
 
Malba Tahan… Meu companheiro daqueles dias em que vivia sonhando! Malba Tahan… Uma vez, tive uma discussão com Cesídio Ambrógi, o poeta vale-paraibano que foi um dos primeiros a estender-me a mão e a guiar-me os passos no mundo da imprensa e das letras: não quis acreditar no que ele me afirmava… Mas eu não acreditaria, mesmo, que Malba Tahan não fosse árabe.
 
Um automóvel estaca num ranger de freios, alguns metros à minha direita. O motorista deblatera, xinga-me. Não digo palavra. Trato de ir andando. Ele não compreenderia que eu não estava ali, que estava longe, muito longe, no passado.
 
A porta do apartamento entreabre-se. Alto, magro, moreno cor de azeitona, cabelos muito negros, um sorriso amável dependurado nos lábios, aparece-me, ainda em mangas de camisa, um rapagão.
 
– Doutor Mello e Sousa está?
 
– Sou eu mesmo.
 
– Você?! É o Malba Tahan?
 
– Isso. Você é o Silveira Peixoto?
 
Apertamos as mãos. Alguns instantes mais, somos íntimos. Explica-se: há muito eu o conhecia; e Júlio César de Mello e Sousa é desses temperamentos acessíveis, cordiais e simples, que sabem estabelecer, em minutos, a desejada comunicação com os que deles se aproximam.
 
Conta-me, quando já está vestindo o paletó, que é paulista:
 
– Nasci em Queluz…
 
– Quando?
 
– Isso é entrevista?
 
– Claro.
 
– 6 de maio de 1895.
 
– Você tem quarenta e seis anos?!
 
– Quarenta e seis.
 
– Pois, francamente, não parece.
 
Aperto o botão da campainha da casa em que Monteiro Lobato está morando. Mello e Sousa disse-me que queria visitar o pai do Jeca Tatu. E prontifiquei-me a servir-lhe de cicerone. Combinei O encontro… A criada vem atender-nos e leva-nos à sala de visitas.
 
Monteiro Lobato, agora, está falando:
 
– Malba, você é um sujeito diferente, que tem um lugar à parte em nossa literatura. Você criou um gênero… Como você conseguiu fazer O homem que calculava? Como pôde tornar assim tão interessantes as coisas áridas da Matemática?
 
– Sou engenheiro e professor. Jamais pude conformar-me com as dificuldades que criam em torno da Matemática. Insubordinei-me, sempre, com a orientação da maioria dos matemáticos, que teimam em colocá-la no terreno da pura abstração. Talvez seja daí que nasceu a ideia de fazer O homem que calculava.
 
– É um livro notável, meu caro. Você precisaria dar um jeito de traduzi-lo…
 
– Os três primeiros capítulos já foram vertidos para o inglês. Mas ficou aí… Não consegui, ainda, que se interessassem por ele, no estrangeiro.
 
– E é preciso fazer que se interessem. Esse livro, lançado na América do Norte, alcançará um sucesso enorme. Dê um jeito, e faça que o editem lá. Você verá o êxito que obterá. Fará uma fortuna com ele…
 
Agora, Malba Tahan passa a falar de seu último livro. É que D. Purezinha Monteiro Lobato veio dizer que um exemplar de A Sombra do Arco-Íris, que Malba trouxe para dar a Lobato, já andou correndo pela casa toda. E Gulnara Morais Lobato vem agradecer a citação a uns versos de seu pai – o poeta Heitor de Morais.
 
– Como você teve a ideia desse livro? – pergunta Lobato.
 
– Pensei em fazer um romance oriental, nele encaixando, como parte integrante do próprio enredo, versos de poetas árabes. Ao ter de falar, os personagens falariam por esses versos. Ao narrar uma situação, sempre que possível recorreria a uns versos, para narrá-la. A ideia comichou, lá por dentro, algum tempo. Um dia, surgiu a pergunta: por que, em vez de versos árabes, não utilizar versos brasileiros? Seria, além de tudo, um trabalho de divulgação da poesia nossa.
 
– Então? – interrogo.
 
– Tratei de pôr mãos à obra. E o volume está aí. Nele se encontram versos de mais de oitocentos poetas brasileiros e citação de uns três mil e quatrocentos…
 
– Quanto poeta! – exclama Rute Monteiro Lobato.
 
– Onde você pôde conseguir os versos de todos eles? – indago.
 
– Lendo. Li, uns dois anos, todo livro de poesia que me caía nas mãos.
 
– Conte isso melhor. Explique, materialmente, como você fez o livro… – pede Lobato.
 
– Fui a tudo quanto é “sebo” do Rio de Janeiro. Chegava e perguntava, logo, quais os livros de poesias. O livreiro apontava-me uma prateleira. Eu mandava embrulhar e carregava para a casa
 
– Então, os poetas agora mudaram-se do Parnaso… – aparteia, numa brincalhonice, Monteiro Lobato. – Foram morar nos “sebos”, hein! E depois, quando já tinha os livros em casa…
 
– Levantava-me às cinco da manhã e começava a ler. Assinalava todos os versos que me pareciam aproveitáveis para o trabalho planejado. Deixava os volumes empilhados sobre a mesa. Quando eu saía, minha mulher e meu filho copiavam os versos assinalados, mencionando a obra e o autor de que os haviam extraído.
 
– Depois?
 
– Afinal, quando tive os versos todos classificados, fui escrevendo os capítulos…
 
– E encaixando os versos… Interessante. Interessante e original. Ainda não conheço um livro assim… – comenta Lobato, já folheando as quatrocentas páginas de A Sombra do Arco-Íris.
 
Há uma ligeira pausa. Quebra-a Lobato, para acentuar, depois de ter lido um trecho:
 
– Malba, você é um gênio da engenhosidade. É inacreditável que se possa fazer um livro destes. Que coisa interessante! Quanto tempo você levou para escrever?
 
– Dois anos.
 
– É interessantíssima a ideia. E assim, como você fez, os versos têm mais vida. É. Você é um gênio da engenhosidade. É um homem à parte entre os nossos escritores.
 
Estamos em minha casa, aqui entre os meus livros: Mello e Sousa sentado em uma poltrona, eu em outra. São onze horas da noite. E a entrevista continua:
 
– Como foi que você começou a escrever?
 
– Eu era aluno do Internato Pedro II e o saudoso Silva Ramos era o meu professor de Português. Três vezes por semana, ele mandava que fizéssemos uns exercícios de composição – não raramente, redações sobre temas abstratos, como o ódio, a esperança, a saudade… Como precisasse de alguns níqueis, fazia três ou quatro redações e tratava de vendê-las aos colegas…
 
– Fazendo negócio, hein?
 
– Precisava dos níqueis. E o fato é que sempre encontrava comprador. Cheguei a ter uma clientela que me pagava a trezentos e quatrocentos réis cada composição. [1] Lembro-me de uma discussão que tive com um colega… Ele queria comprar por duzentos réis uma composição sobre a avareza. Eu queria trezentos réis. Ele, então, argumentou: “Mas você escreve contra a avareza, e está fazendo questão de cem réis!”. Tive de ceder. E assim foi que comecei.
 
– O primeiro trabalho que você publicou?
 
– Foi em O Queluzense – um jornalzinho de minha terra.
 
– Alguma crônica?
 
– Uma série de pensamentos. Inspirados, talvez, em alguma namorada…
 
– A impressão que você teve, ao vê-lo em letra de forma?
 
– Tive a impressão de que aquilo deveria ter uma repercussão tão extraordinária… Tão extraordinária… Quer saber, até sofri uma desilusão, quando vi que o rio Paraíba estava correndo do mesmo jeito. Estava correndo mansamente, no mesmo leito, do mesmo modo, apesar de terem sido publicados os tais “pensamentos”. Aquilo era de decepcionar…
 
– Como nasceu Malba Tahan?
 
– Eu já estava no Rio. Um dia, levei uns contos meus a um jornal carioca – O Imparcial. Deixei-os com o secretário da redação. Ele prometeu que os leria, a ver se estariam em condições de ser publicados. Voltei, dias depois. Reparei que os contos estavam no mesmo lugar… Resolvi tirá-los de sua mesa e levá-los para casa. Raciocinei, então, que J. C. de Mello e Sousa era assinatura que, aposta em um conto, não conseguia despertar atenção. Quem vai ligar a um escritor brasileiro que está começando? Troquei o nome. Recorri a um pseudônimo: R. S. Slady. E os mesmos contos voltaram ao mesmo jornal. Chamei a atenção do secretário: “Veja estes contos que traduzi. São contos de ação, uns contos interessantíssimos de R. S. Slady…”. Imediatamente, ele percorreu o primeiro. Tomou de um lápis vermelho e assinalou, à margem: “grifo, 2 colunas, quadro, 1ª página”.
 
– Esse conto chamava-se?
 
A herança do judeu. Estava provado: J. C. de Mello e Sousa nada valia para o jornal; R. S. Slady ia para a primeira página, em grifo, num quadro, em duas colunas… O caminho, então, seria tratar de escrever com um pseudônimo estrangeiro. Pensei mais sobre o caso. Qual o pseudônimo a adotar? Deveria ser um que tivesse todo cunho de realidade. Americano? Mas não. Queria um pseudônimo que se conformasse bem com o caráter dos trabalhos que pretendia escrever… Seria um árabe.
 
– Por quê?
 
– O árabe é homem que faz poesia a propósito de tudo. Suas atitudes sempre são romanescas. Não compreende a vida sem a poesia. Mas o pseudônimo não deveria ser nem masculino e nem feminino. Teria de ser sonoro. Teria de dar a necessária impressão de perfeita autenticidade. Na Escola Normal, havia uma aluna com um sobrenome interessante: Maria Tahan. Simpatizei-me com esse Tahan. Perguntei-lhe que queria dizer. “Moleiro” – respondeu-me ela. Fui, dias depois, descobrir num mapa da Arábia, o nome de uma cidade – Malba, aldeia perdida na Arábia Pétrea…
 
– E nasceu Malba Tahan…
 
– Que, como vê, pode ser traduzido por “moleiro de Malba”. Comecei, então, a estudar a civilização árabe. Li Gustavo Le Bon, comprei o Alcorão, numa edição comentada, percorri as obras de Massoudi. Tomei um professor de árabe: o dr. Jean Achar. Tempos depois, quando já havia me enfronhado nas coisas do Oriente, procurei Irineu Marinho, a esse tempo um dos diretores de A Noite. Apresentei-lhe uns trabalhos de Malba Tahan. Disse-lhe que se tratava de um escritor árabe; acentuei que eu apenas havia traduzido alguns de seus trabalhos.
 
– E ele?
 
– Acreditou. Achou ótimo um dos trabalhos – O juiz e o ovo.
 
– O enredo?
 
– Certa vez, num país do Oriente, um monarca teve de nomear um juiz. Eram três os candidatos. O monarca fez que se esvaziasse um ovo… Um dos candidatos entrou. “Que é isso?” – perguntou-lhe o monarca. “É um ovo”… – foi a resposta. “É muito precipitado em seus julgamentos. Não serve”… – refletiu o monarca. Veio o segundo. À mesma pergunta, limitou-se a um exame superficial, para responder que se tratava de uma casca de ovo. O terceiro chegou. À indagação, tomou a casca de ovo nas mãos, examinou-a cuidadosamente, analisou-a em todos os seus detalhes. Nada respondeu; pediu que lhe fosse concedido um prazo… Dias depois, o monarca recebia um relatório completo sobre a casca de ovo. Concluía o candidato por afirmar que se tratava da casca de um ovo de pata, mas que se houvesse alguma conveniência para Sua Majestade, seria capaz de jurar que aquilo era um espeto…
 
– A história saiu?
 
– No dia seguinte, na primeira página de A Noite. Irineu Marinho vislumbrou, aí, uma sátira a certo jurisconsulto, então nomeado para o Supremo Tribunal Federal. Todo o Rio leu… E o meu barbeiro veio me contar a história, embora estropiando o final: “aquilo não é ovo; é um espeto em que os outros já se espetaram, mas em que eu não me espeto”.
 
– Seu primeiro livro?
 
Contos de Malba Tahan. É uma reunião de trabalhos já publicados. Levei-os ao Benjamim Costallat que, nesse tempo, era também editor. Ele ofereceu-me 500$000 (quinhentos mil réis) pelos direitos autorais. “Benjamim – disse-lhe eu – se você me virar de cabeça para baixo e me sacudir com toda a violência, não conseguirá que de meu bolso caia mais do que 1$200. Mas não vendo o meu livro por 500$000”.
 
– Quem o editou?
 
– A primeira edição, eu mesmo a lancei.
 
– Fez sucesso?
 
– O rádio ensaiava seus primeiros passos. À falta de outra coisa, algumas de nossas estações radiodifusoras irradiaram os meus contos. O resultado foi que, dentro em pouco a edição estava esgotada. Hoje, o livro está na 6ª edição.
 
– De todos os seus livros, qual é o que considera o melhor?
 
– Gosto mais de Minha vida querida. Porque é um livro de amor e de sentimento. O prefácio – “Radiá” – é a coisa mais feliz que escrevi em minha vida. Depois de Minha vida querida, coloco O homem que calculava.
 
– Não lhe parecem muito diferentes?
 
– Mas a simpatia não procura a geometria das semelhanças. A gente gosta porque gosta. E O homem que calculava é o romance que tem mais afinidade com os meus trabalhos extraliterários: professor de Matemática.
 
– De seus livros, qual o “campeão” em tiragem?
 
– Dos de Malba Tahan, é Lendas do céu e da terra. Deve andar aí pelos 18.000 exemplares. É preciso assinalar, porém, que se trata de livro adotado em muitas escolas.
 
– Quais os autores de que você mais gosta?
 
– Mark Twain, Rudyard Kipling, Conan Doyle, H. G. Wells.
 
– Curioso… Você lê “em inglês” e escreve “em árabe”…   
 
– Explica-se: comecei por eles, e acabei em Sherezade. Em geral, os escritores árabes começam em Sherezade e acabam em Mark Twain.
 
– Dos brasileiros?
 
– Álvaro Moreira, Gustavo Barroso, Marques Rebelo, Monteiro Lobato… Também li muito Taunay… Machado de Assis…
 
A voz de Mello e Sousa está se embaraçando, está saindo com dificuldade. Reparo que ele está cabeceando de sono.
 
– Ainda não é meia-noite e você está com esse sono!
 
E ele, estremunhando um pouco:
 
– Não estou habituado a estas coisas. Levanto-me cedo. Ao mais tardar, já às seis horas estou em pé.
 
– Trabalha durante a manhã?
 
– É, para mim, a melhor hora.
 
– Como você prefere escrever?
 
– Hein?
 
– À pena, à máquina, a lápis?
 
– Não sei datilografia. Escrevo com a caneta, sim…
 
Não contém um bocejo. Levanta-se, anda um pouco.
 
– Malba, seus projetos para o futuro?
 
– Vou fazer um romance cinematográfico, a ver se o aproveitam lá em Hollywood: Alma de Sheik.
 
– O enredo?
 
– O antagonismo entre o Oriente e o Ocidente. Já estou com outro, quase pronto, e que também se endereça aos produtores cinematográficos: Pode o mundo viver sem os dez mandamentos?
 
– Como você responde a essa pergunta?
 
Mello e Sousa pára diante de mim. Olha-me de frente, já mais esperto, menos sonolento. E as palavras lhe saem convictas:
 
– Com a única resposta possível: NÃO!
 
 
NOTA:
 
[1] Nos tempos dos réis… (Silveira Peixoto)
 
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O texto acima foi publicado dia 30 de novembro de 2019 nos websites associados.
 
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