A Dinâmica de um Paradoxo Eterno 
 
 
Gilmar Gonzaga
 
 

 
 
 
Os estudantes da Filosofia Esotérica se deparam inexoravelmente com os problemas e dificuldades conhecidos como paradoxos.
 
Essas situações aparentemente sem solução surgem no caminho dos estudantes com o propósito de estimular o desenvolvimento de uma visão mais completa e integrada da realidade. Elas induzem à transcendência do pensamento linear e do raciocínio polarizado e classificatório.
 
Sobre os inevitáveis paradoxos que resguardam o verdadeiro conhecimento, Helena P. Blavatsky escreveu:
 
O paradoxo parece ser a linguagem natural do Ocultismo. Mais do que isso, ele parece penetrar profundamente no coração das coisas, e assim parece ser inseparável de qualquer tentativa de colocar em palavras a verdade, a realidade que está na base das aparências externas da vida.
 
E o paradoxo acontece não somente nas palavras, mas na ação, na própria conduta da vida. Os paradoxos do ocultismo devem ser vividos, não falados apenas. Aqui reside um grande perigo, porque é muito fácil perder-se na contemplação intelectual do caminho, e assim esquecer-se de que a estrada só pode ser conhecida quando se caminha por ela.” [1]
 
Um paradoxo central a ser elucidado ou transcendido pelos aspirantes à sabedoria está presente na citação a seguir, extraída dos ensinamentos da tradição cristã “primitiva” ou “gnóstica”:
 
50 – Disse Jesus: Se os homens vos perguntarem donde viestes, respondei-lhes: Nós viemos da luz, lá onde ela nasce de si mesma, surge e se manifesta em sua imagem. E se vos perguntarem: Quem sois vós? Respondei-lhes: Nós somos os filhos eleitos do Pai vivo. Se os homens vos perguntarem: Qual é o sinal do Pai em vós? Respondei: É movimento e repouso ao mesmo tempo.” [2]
 
As “chaves de interpretação” têm sido uma ferramenta utilizada pelos instrutores para abertura gradual dos símbolos sob os quais foi protegido o conhecimento sagrado ao longo das eras.
 
Uma instrução enigmática aparece entre os ditos iniciais do mesmo pergaminho (códex) onde foi escrita a citação anterior:
 
5 – Disse Jesus: Conhece o que está ante os teus olhos – e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado.[3]
 
A tradição hermética, conhecida pela proteção e ao mesmo tempo pela transmissão do conhecimento sagrado, fornece pistas para o entendimento do essencial, a partir da correspondência ou analogia em relação ao aparente. No escrito hermético denominado “A Tábua de Esmeralda”, podemos ler:
 
O que está abaixo é como aquilo que está acima, e o que está acima é semelhante a aquilo que está abaixo, para realizar os prodígios da coisa única.
 
Assim como todas as coisas foram produzidas pela mediação de um ser, assim também todas as coisas foram produzidas a partir deste ser por adaptação.” [4]
 
Na coletânea de textos intitulada “Corpus Hermeticum”, encontramos a seguinte afirmação:
 
Todo o universo depende de um único Princípio, e esse Princípio depende do UM-Único. O Princípio está em movimento a fim de tornar-se princípio, enquanto que o Um, somente, permanece imóvel e estável.” [5]
 
A Teosofia ensina que, por meio do estudo da Doutrina dos Ciclos, podemos perceber os aspectos da integralidade e da sucessão dos períodos de movimento e repouso, manifestação e recolhimento, ação e inação.
 
Para se alcançar a visão integrada desses pares de opostos, os paradoxos “devem ser vividos”, conforme ensinou HPB. No conhecido tratado sobre Ioga denominado “Bhagavad Gita”, ensina-se:
 
16. Poderás dizer que, às vezes, até os sábios não podem definir o que é a ação e o que é a inação. Eu te explicarei, e te ensinarei em que consiste a ação que te libertará do mal e te tornará livre.
 
17. É preciso distinguir estas três coisas: ação (isto é, reta ação), inação (ou abstenção) e má ação. É difícil discernir-se o caminho da ação.
 
18. Quem se adiantou de tal maneira, que é capaz de ver ação na inação, e inação na ação, pertence aos sábios de sua raça, e permanece em harmonia enquanto pratica ações.
 
19. As suas obras são livres dos vínculos de esperanças egoístas, e sua atividade é purificada das espumas dos desejos, pela chama da sabedoria. Tal homem merece o nome de Sábio.
 
20. Tendo renunciado aos frutos das suas ações, está sempre contente e confia na força divina do seu interior, e assim está em inação, ainda que trabalhe, porque não age para a sua pessoa, mas deixa agir por si a força Divina.[6]
 
Essa ideia paradoxal da ação na inação também pode ser encontrada na tradição taoista, e é expressa através do conceito de “wu-wei”.
 
Carlos Aveline aborda o tema:  
 
Em seu famoso artigo ‘Ocultismo Prático’ (‘Practical Occultism’), Helena Blavatsky descreve o caminho da sabedoria como ‘o caminho que leva ao conhecimento do que é bom fazer, assim como ao discernimento correto do bem e do mal; um caminho que também leva o ser humano àquele poder através do qual ele pode fazer o bem que deseja, com frequência sem aparentemente mexer um só dedo’. Este princípio da sabedoria esotérica corresponde ao conceito taoista do ‘wu-wei’, agir sem agir.” [7]
 
No que concerne ao aspecto “movimento”, inerente à fase manifestada do universo, o Budismo enfatiza a impermanência das coisas e a filosofia da Ioga adotada por Patañjali demonstra como a mente presente na individualidade humana permanece condicionada ao identificar-se com aquilo que está sempre em movimento ou mutação.
 
Um possível exercício experimental para o processo de autoconhecimento, de autodesenvolvimento e de autolibertação consiste em olhar para o mundo material e perceber as formas manifestadas como impermanentes, ao mesmo tempo em que funcionam como revestimentos do permanente ou essencial, sendo necessárias às experiências evolutivas nos diversos planos de manifestação.
 
Essa percepção pode auxiliar o peregrino no seu trabalho de “autocalibragem”, que contribui para o equilíbrio interno, minimizando a oscilação da mente perante a maré dos acontecimentos, enquanto o indivíduo continua imerso nela. A frase “estar no mundo sem ser do mundo” descreve a conquista.
 
A vivência da auto-observação e da observação do “que está diante dos olhos” fortalece o discernimento e possibilita a gradual percepção do permanente no impermanente, ou, da união na multiplicidade.
 
Uma confirmação desta abordagem pode ser obtida tomando-se como premissa o axioma: tudo que é manifestado é impermanente.
 
Tendo essa verdade em mente, um simples olhar para os registros históricos nos permite afirmar que o que vemos hoje não é o que foi visto há um século.
 
A partir disso é possível inferir que o que se vê hoje não é o que será visto daqui a mil anos. Mas existe nesse singelo exemplo algo que não muda. Trata-se da verdade com base na qual afirma-se que “tudo que é manifestado é impermanente”. A verdade ou lei que estamos examinando pode ser proclamada daqui a mil anos ou mais, assim como vem sendo afirmada há milênios. A mera aceitação dela representa um ponto de partida para a senda do desapego e um passo para a autolibertação.
 
A dinâmica que caracteriza o axioma se desdobra de tal forma nos acontecimentos diários que a percepção apurada e o discernimento desenvolvido permitem a sua identificação no mundo cotidiano, e podem funcionar como excelentes balizadores em nossos processos de autodisciplina.
 
Pela leitura dos trechos do Wen-tzu transcritos a seguir podemos perceber a eterna dança do permanente com o impermanente, do movimento com o repouso, e essa percepção pode ser estendida à nossa experiência na vida diária:
 
As pessoas verdadeiras sabem de que modo considerar o ser interior como grande e o mundo como pequeno. Elas preferem o autogoverno e desprezam o ato de governar os outros. Elas não deixam que as coisas perturbem a sua harmonia, e não permitem que desejos desorganizem os seus sentimentos.”
 
Endireite seu corpo, unifique sua visão, e a harmonia do céu chegará. Concentre seu conhecimento, corrija sua capacidade de avaliar, e o espírito virá para ficar. A virtude será receptiva para você, o Caminho estará à sua disposição.”
 
(…) “Os sábios não substituem o que é celestial pelo que é humano. Externamente eles evoluem junto com as coisas, porém, internamente eles não perdem sua verdadeira condição. Assim, aqueles que compreendem o Caminho retornam à clara tranquilidade. Aqueles que compreendem as coisas se afastam dos artifícios. Eles alimentam a inteligência através da calma, unificam o espírito através da abstração e avançam para o portão do nada.”
 
Portanto a nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme, e não haverá poder que você não possa vencer, nenhum inimigo acima do qual você não possa erguer-se. Responda aos fatos novos, avalie o momento, e ninguém poderá prejudicá-lo.
 
Aqueles que quiserem ser firmes devem preservar a firmeza com flexibilidade; aqueles que quiserem ser fortes devem proteger a força com fraqueza. Acumule flexibilidade e você será firme, acumule fraqueza e você será forte. Observe o que os outros acumulam e você saberá quem sobreviverá e quem perecerá.
 
(…) “A nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme” (…) [8]
 
A devida associação com as emanações do mundo espiritual (Céu) permite-nos lidar de modo harmônico com as emanações mais densas da materialidade transitória que nos reveste (Terra). Assim se expande a colaboração entre as instâncias inferiores e superiores – externas e internas – no processo de desenvolvimento que nos integra.
 
As Tradições apontam o Caminho, mas sempre é importante enfatizar:
 
(…) “As palavras são na verdade humildes veículos de transmissão da verdadeira mensagem, e agarrar-se excessivamente às palavras anulará o fluxo interno da percepção viva. A própria Vida é a mensagem a ser decifrada.” [9]
 
NOTAS:
 
[1] Do texto “O Grande Paradoxo”, de Helena P. Blavatsky.
 
[2] Excerto do livro “O Quinto Evangelho”, de Huberto Rohden, p. 99, Editora Martin Claret, 190 pp. A tradução adotada foi comparada com outras três versões do texto denominado “O Evangelho de Tomé” e somente nesta aparece a expressão “ao mesmo tempo” ao final do dito 50. Não obstante, considerei que nas outras versões essa expressão está implícita.
 
[3] Do livro “O Quinto Evangelho”, de Huberto Rohden, p. 22.
 
[4] Do artigo “A Tábua de Esmeralda”, de Carlos Cardoso Aveline.
 
[5] Do livro “Corpus Hermeticum – Discurso de Iniciação”, Hermes Trismegistos, p. 48, Hemus Editora, SP, 127 páginas.
 
[6] Do livro “Bhagavad Gita – A Mensagem do Mestre”, p. 59, Editora Pensamento, SP, 178 páginas.
 
[7] Nota de rodapé de Carlos Aveline ao capítulo 3 do Tao Teh Ching. Veja a página 9 de “O Teosofista” de maio de 2018.
 
[8] Do texto “Trechos do Wen-tzu”, traduzidos por Thomas Cleary.
 
[9] Do artigo “Uma Escola Esotérica de Três Mil Anos”, de Carlos Cardoso Aveline.
 
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O texto “O Movimento e o Repouso” foi publicado nos websites associados dia 03 de junho de 2019.
 
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