Um Trecho da Obra “Ísis Sem Véu”
 
 
Helena P. Blavatsky
 
 
 
 
 
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O texto a seguir é reproduzido do livro
Ísis Sem Véu”, de Helena Blavatsky, Ed.
Pensamento, São Paulo, vol. I, pp. 81-82. O
trecho foi revisado de acordo com o original em
inglês: veja “Isis Unveiled, vol. I”, pp. xxiii-xxiv.
 
(CCA)
 
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Etrobacia é o nome grego que designa o caminhar ou o estar suspenso no ar; levitação, como a denominam os espiritualistas modernos. Pode ser consciente ou inconsciente; no primeiro caso, é magia; no segundo, uma doença ou um poder que requer algumas palavras de esclarecimento.
 
Uma explicação simbólica da etrobacia é dada num velho manuscrito siríaco que foi traduzido no século XV por um certo alquimista de nome Malco [1]. A propósito de Simão, o Mago, uma passagem diz o seguinte:
 
“Simão, deitando o rosto sobre o solo, murmurou-lhe ao ouvido:
 
‘Ó Mãe Terra, dá-me, eu te peço, um pouco do teu alento; e eu te darei o meu; deixa-me livre, ó mãe, para que eu possa levar tuas palavras às estrelas; e eu retornarei fielmente a ti depois de algum tempo.’ E a Terra, fortalecendo a si mesma, sem com isso nada sofrer, enviou um gênio para soprar o seu alento em Simão, enquanto este lhe soprava o seu; e as estrelas regozijaram-se com a visita do Poderoso.”
 
O ponto de partida aqui é o conhecido princípio eletroquímico segundo o qual os corpos eletrificados de modo similar se repelem um ao outro, ao passo que os eletrificados de modo diverso se atraem mutuamente. “O mais elementar conhecimento da Química”, diz o prof. Cooke, “mostra que, enquanto dois elementos de natureza oposta se combinam com avidez, dois metais ou dois metaloides aparentados mostram pouca afinidade entre si.” [2]
 
A Terra é um corpo magnético; de fato, segundo muitos cientistas constataram, ela é um enorme ímã, tal como Paracelso afirmou há cerca de trezentos anos. A Terra está carregada com uma espécie de eletricidade – chamemo-la positiva – que ela produz continuamente por uma ação espontânea em seu interior ou centro de movimento. Os corpos humanos, assim como todas as outras formas de matéria, estão carregados com a forma oposta de eletricidade – negativa. Ou seja, corpos orgânicos e inorgânicos, abandonados a si mesmos, produzirão a forma de eletricidade oposta àquela da própria Terra e carregar-se-ão constante e involuntariamente com ela.
 
Ora, o que é o peso?
 
Simplesmente a atração da Terra. “Sem as atrações da Terra, não teríeis peso”, diz o professor Balfour Stewart, e “se tivésseis uma Terra duas vezes mais pesada do que esta, teríeis o dobro de atração”.[3]
 
Como, então, podemos escapar a esta atração?
 
Segundo a lei elétrica mencionada acima, existe uma atração entre o nosso planeta e os organismos que vivem sobre ela; e esta atração os mantém na superfície do solo. Mas a lei da gravidade foi contrariada em muitas ocasiões por levitações de pessoas e de objetos inanimados; como explicar tal fato?
 
O estado de nossos sistemas físicos, dizem os filósofos teúrgicos, depende consideravelmente de nossa força de vontade. Se bem regulada, ela pode produzir “milagres”; entre outros, uma modificação da polaridade elétrica de negativa para positiva; as relações do homem com a Terra-ímã poderiam assim tornar-se repelentes, e a “gravidade” teria cessado de existir para ele. Ser-lhe-ia, pois, tão natural caminhar nos ares enquanto perdurasse a força repelente, como, antes, lhe foi permanecer na Terra.
 
A altura dessa levitação poderia ser medida por sua habilidade, maior ou menor, de carregar o corpo com eletricidade positiva. Uma vez adquirido este controle sobre as forças físicas, alterar sua leveza ou seu peso poderia ser tão fácil como respirar.
 
O estudo das doenças nervosas estabeleceu que mesmo no sonambulismo comum, assim como nos sonâmbulos mesmerizados, o peso do corpo parece diminuir. O professor Perty menciona um sonâmbulo, Koehler, que, estando na água, não podia afundar mas só flutuar. A vidente de Prevorst [4] elevava-se à superfície da banheira e não podia manter-se nela sentada. O professor Perty fala de Anna Fleisher, que, sendo sujeita a ataques epiléticos, foi com frequência vista pelo Superintendente a elevar-se no ar; e uma vez, na presença de duas testemunhas fidedignas (dois deãos), ela se elevou à altura de dois metros e trinta centímetros acima de seu leito, em posição horizontal. [5]
 
Upham, em sua History of Salem Witchcraft, cita um caso similar, o de Margaret Rule. “Em indivíduos extáticos”, acrescenta o professor Perty, “a elevação no ar ocorre muito mais frequentemente do que com os sonâmbulos. Estamos tão habituados a considerar a gravitação como algo absoluto e inalterável que a ideia oposta de uma ascensão completa ou parcial parece inadmissível; entretanto, há fenômenos em que, devido às forças materiais, a gravitação é dominada. Em muitas doenças – como, por exemplo, a febre nervosa -, o peso do corpo humano parece aumentar, mas diminuir em todas as condições extáticas. E podem existir, igualmente, outras forças, além das materiais, capazes de neutralizar tal poder.”
 
Um jornal de Madri, El Critério Espiritista, de data recente, relata o caso de uma jovem camponesa das proximidades de Santiago que apresenta um caso todo especial a esse respeito. “Duas barras de ferro imantado mantidas horizontalmente sobre ela, a meio metro de distância, bastam para manter-lhe o corpo suspenso no ar.”
 
Quando nossos médicos fizerem experimentos com tais indivíduos levitados, descobrirão que eles estão fortemente carregados com uma forma de eletricidade semelhante àquela do ponto em que se acham, a qual, de acordo com a lei da gravitação, deveria atraí-los, ou, pelo menos, impedir-lhes a levitação. E se alguma desordem nervosa física, assim como o êxtase espiritual, produz inconscientemente para o indivíduo os mesmos efeitos, isso prova que, se esta força da Natureza fosse convenientemente estudada, seria possível regulá-la à vontade.[6]
 
NOTAS:
 
[1] Em nota de rodapé, Boris de Zirkoff diz que se trata provavelmente de Solomo Malco ou Malchu, judeu português nascido em 1483 e autor de diversos livros, entre eles “Bestia Arundinis”, que trata dos Salmos e foi impresso em Amsterdam e Praga em data desconhecida. (CCA)
 
[2] [The New Chemistry, p. 264.] (Nota de Boris de Zirkoff)
 
[3] “The Sun and the Earth”, Conferência de Manchester, 13-9-1872. (Nota de H.P.B.)
 
[4] A vidente de Prevorst – Friederike Hauffe (1801-1829), uma mística e sonâmbula alemã. (CCA)
 
[5] [Mystischen Erscheinungen, etc., 1861.] (Nota de Boris de Zirkoff)
 
[6] Informação interessante e valiosa sobre o tema da etrobacia, ou levitação, incluindo uma lista bastante ampla dos “santos” católicos romanos que se supõe terem possuído esse poder, pode ser encontrada em The Theosophist, vol. I, janeiro de 1880, pp. 84-86. (Nota de Boris de Zirkoff)
 
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O texto acima foi publicado nos websites associados dia 04 de março de 2020.
 
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