Escolha um Bom Ideal e Ame-o Ardentemente
 
 
Jean des Vignes Rouges
 
 
 
 
 
“Você deve representar o ideal como uma certa
concepção de vida à qual você se submete de forma
voluntária, com contentamento e com amor; como
um conjunto de regras morais que jura observar, ou
mesmo como uma série de princípios que você não
apenas professa, mas que permeiam tão profundamente
a sua mentalidade que os segue quase sem pensar nisso.”
 
 
 
Você definiu uma meta específica e concreta para si mesmo. E isso é suficiente?
 
Não! Você também precisa de um ideal. A palavra parece antiquada. Sugere algum tipo de lavagem cerebral que os mais velhos, movidos por um zelo austero e nocivo, imporiam aos jovens. “O ideal”, você pode pensar, “é algo que se come com torradas? É com ele que nos aquecemos, nos vestimos, ou nos divertimos? É irônico falar-me de um ideal quando estou na miséria! Seu grande ideal é algo sem gosto. Fique você com ele!”
 
Vou oferecer o ideal a você assim mesmo, porque você me parece que realmente precisa dele!
 
Vamos raciocinar. Você não está feliz porque encontra obstáculos em seu caminho. Você protesta amargamente. Mas a realidade, as coisas, as instituições, não parecem escutar as suas reclamações. Você argumenta: “Ah! Mesmo assim, o mundo funcionaria melhor se as pessoas fossem boas, justas, verdadeiras e fraternas; se a sociedade fosse feita de forma diferente, se a moralidade fosse respeitada, etc.”
 
Ao dizer isso, você acaba de formular um ideal, uma imagem de perfeição, tal como o ressentimento faz você concebê-la.
 
Mas você não acha ruim apenas a realidade externa. O seu ser íntimo, o seu eu, a sua personalidade, nem sempre o satisfazem. Quantas vezes você desejou ser mais forte, mais instruído, mais hábil, mais eloquente, mais orgulhoso, mais corajoso? Também lhe parece altamente desejável ser considerado pelos seus concidadãos como um homem justo, honesto, generoso e honrado. Você até pensa que seria “chique” deixar aos seus filhos, e à posteridade, a memória de um homem fiel aos seus compromissos, que se sacrificou sem mesquinhez pelo bem, pelo belo, pelo verdadeiro, e em cujo túmulo alguém escreveria: “Aqui jaz um bom pai, um bom marido, um grande cidadão”. Esta visão, embora um pouco melancólica, toca as suas emoções.
 
Muito bem, meu amigo, é isso, você tem um ideal! Apenas você não sabia disso!
 
Todo o mundo tem um ideal. O vagabundo que ronda as avenidas à noite também tem o seu ideal, e afirma com orgulho que é sempre “confiável” para os seus amigos, mesmo quando troca facadas com eles. Este ideal é uma questão de honra para ele.
 
Façamos uma lista com os ideais de alguns tipos de pessoas. 
 
O artista, que gasta as suas energias todas e esquece de preservar a saúde, para criar a sua “obra-prima”.
 
A pessoa abastada que, para satisfação das suas inclinações filantrópicas – ou para obter algum título honorífico, talvez – preside uma sociedade beneficente.
 
O trabalhador operário, que entrega um décimo do seu salário para a “causa”, contribuindo para o “partido”.
 
O agricultor, que quer deixar ao filho uma propriedade bem cuidada.
 
O atleta de algum esporte, que aspira a bater um recorde. 
 
O apaixonado, que quer tornar-se digno da mulher maravilhosa que ele ama.
 
Todas essas pessoas têm um ideal.
 
– “Sim”, você diz rindo, “mas, nesse sentido, eu também tenho um ideal: o de comer bem e não me cansar.”
 
– Neste caso, meu caro amigo, você não tem chance alguma! De todos os ideais possíveis, você escolheu o pior. Quase equivale a uma condenação à morte, sem escapatória. Pense bem. Na verdade, o prazer de viver não está tão enraizado em você como você pensa. Já não aconteceu com você estar tão sobrecarregado de provações, sofrimentos e cansaço que só queria se deitar na estrada como um cavalo exausto que não consegue mais ficar em pé?
 
Bem, o mesmo desânimo o espera se o tédio envolver você com demasiada força. Sua vida é tão agradável que você passa mal nos dias em que não tem um bom filme para ver. Mas esse tédio do qual você foge olhando para a tela de cinema, ou no bar ou na cafeteria, irá apenas aumentar, se você não tiver um ideal. Coma, beba, durma hoje, recomece amanhã e continue sem ter outro interesse senão ver a evolução da sua obesidade. Afundar no sonho sombrio de engordar como um porco – isso é viver? Ah, claro que não. É algo lenta e horrivelmente destruidor.
 
É possível que algumas pessoas estejam satisfeitas com este tipo de vida abjeta. Mas elas não leem o que eu escrevo. Posso mostrá-las chapinhando na lama, elas nunca suspeitarão disso. Mas já que você está lendo estas linhas, eu lhe digo que você precisa de um ideal, de um ideal verdadeiro.
 
Como você poderia viver sem ele? A necessidade de um ideal brota espontaneamente do próprio horror que a dor, a injustiça e a maldade inspiram em você. É uma reação silenciosa – ou tempestuosa – contra as fraquezas que você sente dentro de si. As tendências na direção de uma vida nobre agitam a sua alma, e aspiram a ser claramente expressadas. Devemos fazer com que elas encarnem, todas, em um ideal.
 
Qual será ele? Você vai comprá-lo “pronto”, em alguma loja? Ou você fará um pedido personalizado para um fabricante famoso?
 
A sua dificuldade é grande. Já mostrei anteriormente em que consistem os ideais de muitas pessoas boas. Há pessoas que visam o sublime e até a santidade. Outras mal ultrapassam a busca de um objetivo material. Há os que correm atrás de quimeras, dedicando-se às ideias mais barrocas e complicadas.
 
Encontramos até gente desesperada cujo ideal de vida consiste em pensar no seu próprio sofrimento. Esforçam-se por destruir as razões de viver dos outros, por zombar daqueles que agem, querem atacar a felicidade e provar que o Universo é apenas um turbilhão de catástrofes, em meio às quais os homens lutam ridiculamente. Poetas gloriosos já cantaram a alegria de morrer em cinquenta volumes de versos. O que, aliás, não os impediu de atingir uma velhice digna. O que você quer, o ideal deles era produzir belezas literárias a partir do desespero!
 
Você não vai querer um ideal tão complicado. O que você precisa é de um ideal que estimule a sua vontade, que eleve as aspirações, que exija esforço e o convide a se superar.
 
Mas o que estou dizendo? Parece que estou aconselhando você a escolher um ideal como quem escolhe uma boa bicicleta. Estou errado! Na verdade, trata-se sobretudo de expressar as suas próprias tendências mais profundas, evitando deixar que elas sejam capturadas por influências externas, ou dificultadas por bloqueios inoportunos.
 
É deste modo que você ficará atento aos entusiasmos súbitos nascidos do contágio social. Quando as pessoas se reúnem, rapidamente se exaltam e criam algum ideal absurdo, mas que parece majestoso, porque “é a voz do povo”.
 
É claro que não se pode escapar completamente das influências sociais. A sua vida mental, como a vida de todas as pessoas, é alimentada por contribuições extraídas de livros, de jornais, e até mesmo de propaganda. Nesse fluxo constante, saiba como separar as ideias que mais lhe agradam.
 
Mas, por favor, não caia no medo maníaco de sofrer alguma lavagem cerebral. Para viverem a falsa glória de não serem enganados, alguns indivíduos repetem a todo momento que “estão de fora”. Assim que alguém lhes fala de ideais, eles zombam, afirmando que não têm vocação para heróis.
 
Talvez! Mas, neste caso, eles também não têm capacidade de agir, de vencer, de se dedicar, de se entusiasmar, de amar, e, numa palavra, de viver.
 
Entre o extremo de uma recusa imbecil dos ideais e o outro extremo de uma aceitação estúpida de todas as mentiras, você saberá adotar mentalmente a atitude que permite acreditar num ideal.
 
Os materiais obviamente serão fornecidos pela sociedade, mas é você quem vai escolhê-los e ajustá-los, com inteligência e com amor.
 
Com inteligência, ou seja, tendo em conta o seu temperamento, as suas aptidões, a sua saúde, a sua força, sua situação social e familiar. E com amor, isto é, sabendo discernir e respeitar os impulsos espontâneos que o levam a amar certas formas de vida e certas ideias.
 
No entanto, não pense que a adoção de um ideal seja uma operação principalmente positiva. Não. Um ideal que você possa desmontar em todas as suas partes, examinando-as uma por uma e pensando: “Aqui está um bom mecanismo, capaz de me impulsionar vigorosamente pela vida”, será uma meta [1], mas não será um ideal.
 
Você deve representar o ideal como uma certa concepção de vida à qual você se submete de forma voluntária, com contentamento e com amor; como um conjunto de regras morais que jura observar, ou mesmo como uma série de princípios que você não apenas professa, mas que permeiam tão profundamente a sua mentalidade que os segue quase sem pensar nisso.
 
No entanto, atenção! Muitas pessoas, especialmente mulheres, imaginam-se “cheias de ideais” apenas porque se entregam com frequência a vagos devaneios, durante os quais brincam com imagens de heroísmo, de amor puro, de perfeição e do absoluto. Neste belo lago de utopias, à luz radiante do sol poente, estas pessoas ilustres navegam deliciosamente e, depois destas sessões de sonhos indefinidos, declaram com orgulho que sabem refugiar-se no “ideal”, fugindo das coisas feias da vida!
 
A verdade é que estas pessoas evitam covardemente o esforço. Porque a marca de um ideal saudável é que ele o leva a ações, condutas, e comportamentos que produzem uma vida mais plena, mais verdadeira, mais nobre.
 
Aqui estão exemplos de alguns ideais adotados, ao longo da história, por multidões de seres humanos que viveram de forma plena, intensa e harmoniosa.
 
O ideal de santidade. Não há necessidade de defini-lo. Você já sabe que ele eleva aquele que o adota até os níveis mais sublimes de exaltação.
 
O ideal do dever. O ser humano que, em todas as circunstâncias, comporta-se em relação aos outros observando todas as regras da ética e da moralidade.
 
O ideal do patriotismo, graças ao qual alguém concebe a grandeza da sua pátria como uma meta tão preciosa que está disposto a sacrificar tudo por ela, até a própria vida.
 
O ideal da responsabilidade. Significa ter a percepção viva de que somos a causa de algo e, com orgulho, em todas as circunstâncias, reivindicamos a responsabilidade pelos nossos atos.
 
O ideal de justiça. É sentir intensamente uma indignação diante da injustiça. Esta revolta generosa está imbuída de amor pelos outros e impele-nos a praticar atos que corrigirão a iniquidade, mesmo que isso implique perigos.
 
O ideal de liberdade expressa o horror instintivo que temos das imposições injustas, e, ao mesmo tempo, o desejo ardente de criar uma situação social que garanta o pleno desenvolvimento da personalidade de todos.
 
O ideal de solidariedade é um esforço sincero, generoso e nobre para deixar claro que o ser humano só pode viver dentro de uma comunidade onde cada membro considera os outros como seus irmãos e tem prazer em dedicar-se ao bem deles.
 
O ideal da caridade pertence a aqueles que alcançam a felicidade ajudando os outros. Deste modo eles tomam consciência da nobreza de alma elevada a que chegaram.
 
O ideal do amor e da compaixão para com a humanidade tem a mesma fonte, e os mesmos efeitos.
 
O ideal do progresso: o indivíduo se esforça com profunda alegria para contribuir tanto quanto possível para o aperfeiçoamento social e moral da sociedade humana.
 
Mas todos estes ideais, cuja lista poderia ser alargada – e a cada um dos quais teríamos que dedicar um livro inteiro para mostrar a sua força, as suas belezas e a sua nobreza – podem, em certa medida, ser resumidos por este, sobre o qual eu convido à reflexão: o ideal de autoaperfeiçoamento.
 
Tome a decisão, portanto, de que em todas as circunstâncias da vida você se esforçará para considerar como um dever essencial a obrigação de se tornar mais forte, mais ativo, mais autocontrolado, mais dedicado aos outros, mais nobre, mais inteligente, mais virtuoso, de modo a garantir a expansão integral do seu ser. Isso produzirá um sentimento de dignidade pessoal. Você terá consciência de ser uma pessoa, ou seja, um indivíduo dotado de qualidades originais bem definidas, para com quem você tem deveres a cumprir.
 
Essa percepção da sua dignidade deve ser cultivada por você em todos os sentidos. Diga a si mesmo mais de uma vez que você é aperfeiçoável. Pense nos privilégios que você possui como ser humano. Um animal só pode repetir indefinidamente os atos necessários à sua preservação; você, por outro lado, é capaz de inventar novas formas de comportamento; uma ansiedade sagrada atormenta você e o empurra para um grande destino. Existe dentro de você, na sua alma, no fundo do seu ser, uma misteriosa intuição a que você deve obedecer para não perder a vida.
 
Veja este espírito que anima você e às vezes o angustia como uma prova de nobreza. Aceite todas as consequências que a sua presença impõe. É assim que você será levado a desenvolver a sua inteligência, a sua sensibilidade, a sua vontade de ser você mesmo, isto é, de ser um “personagem” que você ainda não conhece, pois você o inventará e o aperfeiçoará ao longo dos dias de sua existência. Mas a intuição que você tem dele, as visões durante as quais ele lhe aparecerá por relances em determinados momentos, serão suficientes para que você deseje encarná-lo plenamente.
 
Este esforço por se superar, por ir além de si mesmo, esta necessidade de crescimento, não demorará a impor a você a convicção de que nenhuma verdadeira grandeza é possível sem uma submissão às regras morais. O homem que adquiriu força, inteligência e vontade é obrigado a doar a sua riqueza; caso contrário, o que faria com ela? Buscar a perfeição em todos os aspectos da vida significa necessariamente fazer predominar dentro de si as noções de honra, de generosidade, de dever, de justiça, de solidariedade, caridade, etc. Ou seja, todos os grandes ideais que listei mais acima.
 
Quando esta concepção de vida, inspirada pelo desejo de perfeição, se tornar para você um pensamento contínuo, uma preocupação e uma “obsessão sublime”, o efeito dela sobre você será prodigioso. Em vez de se sentir como se estivesse se debatendo pesadamente nos lodaçais da vida, você se sentirá como se estivesse sendo lançado a alturas em que pode respirar com alegria. Todas as tendências que competiram pelo comando em você e causaram anarquia serão de agora em diante disciplinadas e colocadas a serviço do seu ideal. Isso resultará em um aumento considerável da sua “produção” de felicidade.
 
Depois dessa transformação, não há mais hesitações! O seu ideal, prefiguração do seu destino, ajuda você a resolver todos os problemas. Você sabe para onde está indo, sabe o que é bonito ou feio; você sabe as palavras que devem ser ditas, as ações que devem ser realizadas para “ter sucesso” na vida, no sentido nobre do termo. Em suma, a sua alma está integrada, está aquecida, está orientada e direcionada vigorosamente para o seu “bem”.
 
Mas não basta adotar um ideal num instante de entusiasmo. Você também precisa saber como defendê-lo. Você terá numerosas oportunidades de fazer isso. 
 
Muita gente, com um ar insolente, lhe dirá: “O quê? Você está falando de ideais? Está dando importância a essa coisa que não vale para nada? Mas, meu amigo, o ideal é um peso morto nos negócios! Você certamente se afogará, se se sobrecarregar desse jeito!”
 
Recuse este “bom conselho” pensando: “Não, não vou por este caminho. Eu tenho um ideal, ele é um tesouro, e eu o preservo!” Porque, na realidade, aqueles que o convidam a “ser esperto” obedecem, às vezes sem perceber, ao prazer de destruir. O ser humano é assim, ele fica contente quando saqueia. Ele gosta de ver as suas destruições como prova da sua força. No entanto, o cético que destrói o ideal do seu semelhante experimenta com maior frequência essa satisfação perversa. Ele sabe que estabelecerá a sua dominação na medida em que consiga abalar o princípio ideal da força de um possível concorrente.
 
Portanto, escolha um ideal e ame-o ardentemente. Experimente de modo pleno a alegria de sentir que mais nobreza e mais grandeza estão florescendo dentro de você. Confie nas suas forças secretas que farão com que você se apaixone pelo seu ideal tal como um homem se apaixona por uma mulher, simplesmente porque a vê como um ser sublime cujo valor é incomparável.
 
Examine com frequência o seu ideal desde o ponto de vista do pensamento. Admire-o, prostre-se diante dele, dedique-lhe uma adoração fervorosa. Você é o sumo-sacerdote cuidando de uma chama sagrada para que ela não se apague.
 
Melhor ainda, diga a si mesmo que o seu ideal é uma ordem de Deus; que você recebe esta ordem trêmulo de veneração e de amor, e a cumpre com a deslumbrante impressão de que finalmente compreende o sentido da vida, o qual está em participar do absoluto, do infinito, da perfeição.
 
NOTA:
 
[1] Veja, no livro «Dictionnaire de la Volonté», a palavra “meta” (but, em francês). (CCA)
 
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Jean des Vignes Rouges é o nome literário do militar e escritor francês Jean Taboureau (1879-1970). 
 
O artigo acima é uma tradução do texto “Idéal – La Force Propulsive de la Volonté”. Originalmente, o texto faz parte do livro  «Dictionnaire de la Volonté», de Jean des Vignes Rouges, Éditions J. Oliven, Paris, 320 pp., 1945, pp. 162-168.
 
Ideal – a Força Propulsora da Vontade” está publicado em português na edição de dezembro de 2023 de “O Teosofista”. A tradução é de Carlos Cardoso Aveline. A sua publicação como artigo avulso nos websites da Loja Independente de Teosofistas ocorreu em 19 de dezembro de 2023.
 
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