Cada um Pode se Transformar
Num Pequeno Centro de Boa Vibração
 
 
Emanuel Tadeu Machado
 
 
 
 
 
Um dos primeiros passos na caminhada do peregrino teosófico rumo à autoconsciência passa por uma misteriosa deferência por tudo o que é grandioso e desconhecido.
 
Esse é um passo importante. O assombro com a vastidão da natureza, do universo e da vida inclina o buscador da verdade ao desejo de escrever acerca do que aprende, fazendo uso de sua percepção das coisas. A reflexão sobre o mundo é intuitiva, manifestando-se, depois, por palavras.
 
O sistema da natureza, que o estudante começa a compreender graças ao estudo da teosofia clássica, contém em potencial todo o conhecimento acerca da evolução do universo, de suas leis e da sua finalidade.
 
A verdadeira paz interna dispensa o que é destruído pelo tempo. O peregrino passa a ter seu foco em sua própria substância essencial, que em si é duradoura. Os edifícios religiosos se tornam desnecessários. Não será nos altares de mármore que o Ser Imortal surgirá, mas no átrio dourado do coração do buscador da verdade.
 
O mesmo silêncio encontrado nos templos de pedra pode ser encontrado na vastidão dos mares e campos, no pôr do sol, no brilho prateado da lua e dos astros no firmamento. Existe um templo à nossa volta, tão grandioso que se estende desde a imensidão do universo até o centro invisível da consciência de cada ser vivo.
 
Em algum momento de seu caminho o estudante começa a olhar para dentro de si. Começa a perceber que ele mesmo é um templo. Que é composto de muitas moradas, as quais são habitadas por faces diferentes de si mesmo. Cabe adentrar em cada um destes cômodos, e afastar as cortinas que impedem que a luz limpe e ilumine tudo. Esta luz surge de dentro, de seu Eu Real e Superior, que é o habitante do templo interno. Esta é a verdade, partilhada por todos os seres e que pode ser amadurecida por um processo de autoconstrução.
 
Avançando o estudante pelo caminho do ensinamento contido nas obras clássicas, bem como no esforço interno por cultivar e preservar a verdade, o processo de aprendizado se consolida.
 
O sistema ético que o estudante aos poucos constrói se torna um modo natural de conduta no dia a dia. Aos poucos se vai afastando de coisas inúteis e preferindo a companhia do bem e da verdade.
 
Os semelhantes interagem e cooperam entre si. O bom magnetismo acaba por congregar aqueles que têm por norma o cultivo da ética e do altruísmo. Se cada um se torna um pequeno centro de boa vibração, ocorre uma transmutação na sociedade como um todo, que passa a cumprir corretamente o seu papel histórico.
 
Mahatma Gandhi, como tantos outros, ensinou pelo exemplo, e definiu normas de conduta ao seu Ashram, que são a expressão de um profundo amor ao ideal sagrado de cumprir com os deveres apontados pela natureza humana:
 
“Com toda humildade me esforçarei
para ser amigo, verdadeiro, honesto e puro,
para nada possuir de que não tenha necessidade,
para merecer o salário do meu trabalho
e ser eternamente vigilante
naquilo que bebo e como,
e para ser intrépido sempre,
procurar ver sempre o bem no meu próximo,
seguir fielmente o svadeshi [1]
e ser um irmão para todos os meus irmãos.” [2]
 
Por pequeno que seja, cada esforço rumo à meta correta da justiça interna e externa contribui para fortalecer o caráter interior.
 
Cultivar o hábito da meditação proporciona expansão da consciência e uma sintonia com o que é duradouro.
 
O contato frequente com a natureza e suas expressões (ventos, rios, florestas, terra e céu) favorece e amplia a percepção interior, que se torna capaz de absorver as mensagens ocultas da natureza. Também é possível ter um vislumbre da harmonia sagrada existente no fluxo do tempo e nas muitas dimensões do espaço que nos circunda.
 
Aos poucos, em meio aos nossos erros e fracassos, aquilo que há de mais interno e superior em nós é reconhecido como um pequeno templo; um precário espelho do universo; uma  limitada expressão da Lei Universal na escala da consciência humana imperfeita.
 
Nesse sentido, Carlos Cardoso Aveline escreveu:
 
“O verdadeiro templo está no centro da consciência do indivíduo. O estudante sabe que pode visitar a cada dia esse santuário, e que para isso deve deixar do lado de fora da porta de entrada os sapatos das preocupações materiais.” [3]
 
Para viver como um templo, é preciso ter foco nas ações corretas, abandonando ou combatendo os males do mundo. É correto auxiliar a evolução dos demais seres, nossos irmãos de caminhada.
 
Quanto mais nos conhecemos, mais podemos conhecer aos outros, sendo possível dialogar diretamente com suas almas e mentes por intermédio da linguagem sutil e intuitiva, de Buddhi-Manas.
 
Cada um é uma fortaleza em construção. Não somos, porém, como uma dura e alta muralha. Guardamos tesouros em nossos corações à medida que vamos acumulando experiência dentro de um processo de discipulado leigo. A vida do aspirante à sabedoria passa a servir de exemplo impessoal. Há nela um tesouro interno que se expande e acaba por influenciar os seres aptos a partilhar do mesmo magnetismo.
 
Podemos ler no mesmo texto:
 
“Aqueles que se reúnem diariamente com suas consciências constroem a única base firme para a busca da felicidade. A verdadeira bem-aventurança é incondicional. Ela independe de fatos externos de curto prazo. Nela está o alicerce durável do movimento esotérico autêntico.”
 
“O movimento teosófico tem sua base primeira no plano celeste e na alma imortal de cada estudante. O mundo externo é o campo de testes e a lavoura a ser trabalhada pelos que plantam o bem através da vivência da sinceridade.” [4]
 
A Loja Independente de Teosofistas se apresenta como um convite. Dentre todos os seres, aqueles que se aproximam dela ampliam a digna oportunidade de convívio e cooperação na construção do futuro. A eles oferecemos o nosso trabalho. 
 
NOTAS:
 
[1] Svadeshi: serviço altruísta aos que estão perto de nós, compromisso com a produção independente de bens econômicos, autonomia econômica e social da comunidade local. (Nota explicativa do texto “Voto dos Membros Do Ashram de Gandhi”)
 
 
 
 
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O artigo acima foi publicado nos websites associados dia 11 de novembro de 2020. Sua publicação inicial ocorreu na edição de junho de 2019 de “O Teosofista”, pp. 12 a 15.
 
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