O Poder do Amor Segundo
Um Pensador do Século 17
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
Capa da edição portuguesa de 1944 de “Casamento Perfeito”
 
 
 
Publicado pela primeira vez em 1630, o livro “Casamento Perfeito” é raro, mas não é impossível obtê-lo. A vida do seu autor, Diogo de Paiva de Andrada, é pouco conhecida. [1]
 
As teses do livro são clássicas. São espirituais. Têm como base os filósofos antigos e a sabedoria perene. Na primeira parte do século 21, porém, elas podem soar como heréticas para os que seguem a religião cega do materialismo de curto prazo.
 
As ideias de Paiva de Andrada escandalizam algumas pessoas que se consideram modernas. São quase “absurdas” para um certo subnível de opinião pública, porque o autor de “Casamento Perfeito” afirma:
 
* A beleza interior deve ser mais amada que a beleza externa. (p. 27)
 
* Segundo escreve Putarco, dura pouco o amor baseado exclusivamente na beleza do corpo. (p. 28)
 
* Em alguns casos, porém, “se bem descobrirdes a verdade, amais o rosto,  não a mulher”. (p. 29)
 
* Seguramente não é sempre verdadeiro o antigo ditado segundo o qual “cabeça formosa não tem miolo”. (pp. 84-85)
 
* É quando se ama a formosura interior que, quanto mais passa o tempo, mais cresce o amor. (pp. 29-30)
 
* A virtude não é um favor que se faz aos outros, mas um prêmio para si mesmo. A virtude é o canal por onde descem as perfeições até o gênero humano. (p. 134)
 
* O casamento deve ser reconhecido como um processo sagrado de afinidade entre duas almas. (pp. 1-3) [2]
 
No entanto, a ação correta implica esforço,  auto-observação e discernimento.
 
A Criatividade Responsável
 
A vida familiar exige uma disciplina espiritual.  Amar é uma função criativa da alma, e tudo o que envolve a alma requer também coerência.
 
Paiva de Andrada escreve:
 
“…Posto que o muito amor é tão necessário, e a falta dele tão arriscada entre os casados, convém contudo, que não seja ele [vivido] com tanto excesso, que exceda as leis de Deus, e as da razão. Porque se o for, como o amor grande tem por ofício transformar-se todo nos gostos e desejos da coisa amada, sem ter operação certa nem vontade própria, se qualquer deles se deixa levar de alguma paixão mal ordenada, logo o outro se levará da mesma, e de comum consentimento virão a cair em algum pecado ou desconcerto aqueles mesmos corações que Deus [3] uniu em amor.”  
 
E prossegue:
 
“Há de se evitar de toda forma este perigo, que não dá de si menos desastres dos que [vemos] no pouco amor: e para isto é muito importante, que cada um dos casados, que se querem muito, tragam sempre os olhos, e pensamentos, no que pedem a razão e a vontade divina. Porque como o amor os faz formar um só desejo, e daí [decorrem] quaisquer efeitos, bons ou ruins, quando ambos se inclinarem para o bem, nunca podem deixar de ser virtuosas todas suas obras, e quando se empregam no que é justo, esse amor, que com as vontades viciadas os arrebatava para o vício, com as mesmas bem ordenadas os fortifica na virtude.”[4]
 
Escrito em linguagem clássica, “Casamento Perfeito” examina com lucidez as bases espirituais de qualquer civilização digna do nome. A fonte de todo processo social está na estrutura afetiva e familiar.
 
O livro de Paiva de Andrada deve ser respeitado como obra do seu tempo.  Precisa ser lido com um olhar intercultural. É vendo além da forma passageira que enxergamos a essência perene do saber humano acumulado.
 
NOTAS:
 
[1] Diogo de Paiva de Andrada,  “o jovem”, foi sobrinho do bem conhecido teólogo do mesmo nome, Diogo de Paiva de Andrada (1528-1575). As datas de nascimento e morte do autor, Diogo sobrinho, são incertas. Diferentes fontes indicam anos diferentes. A Biblioteca Nacional de Portugal afirma que ele nasceu em 1576 e morreu em 1660.
 
[2] Estamos usando o livro “Casamento Perfeito” tal como reeditado em 1944 pela Livraria Sá da Costa, Lisboa, com 206 páginas. Cabe registrar que o prefácio de Fidelino de Figueiredo ao livro de Diogo de Paiva de Andrada, sobrinho, é pouco feliz. O texto introdutório fracassa até mesmo na tarefa de reconhecer o valor espiritual da obra.
 
[3] Lei de Deus, isto é, a lei universal, a lei do equilíbrio. 
 
[4] “Casamento Perfeito”, de Diogo de Paiva de Andrada, Livraria Sá da Costa, 1944, ver pp. 18-19. A ortografia foi atualizada. Em alguns pontos, a linguagem foi adaptada para ser compreensível no século 21.
 
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O artigo “A Força Sagrada do Casamento” foi publicado como item independente nos websites associados em 18 de abril de 2021. Uma versão inicial da primeira parte do texto está incluída anonimamente na edição de dezembro de 2019 de “O Teosofista”, pp. 16-17.  A substância principal da segunda parte do artigo pode ser vista na edição de junho de 2020 de “O Teosofista”, pp. 3-4.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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